Sempre pensei nas divisões biológicas de sexo apenas entre os dois binários: homem e mulher, independente da orientação sexual de cada um. Há alguns meses, conheci Dionne. Uma mulher que me fez repensar os meus conceitos sobre gênero e sexualidade, não só nos outros, mas também em mim mesma. De que maneira a nossa criação é estabelecida diante de um padrão do que é ser feminino ou masculino e como isso influencia em quem somos ou poderíamos ser?

Dionne Freitas é uma mulher transexual e intersexo, que foi criada como um menino até os 12 anos, quando começaram a aparecer fisicamente características femininas em seu corpo. A negação do pai com o que estava acontecendo fez com que ela precisasse se automedicar escondida por um período durante a adolescência, momento em que morava no interior de São Paulo e passava diariamente por situações de linchamento público, sendo agredida com pedras pelas ruas. A situação mudou um pouco quando a família e os médicos se dispuseram a entende-la para que reposição hormonal correta pudesse ser realizada.

Hoje, no Brasil, mais de 3 milhões de pessoas são intersexo. Intersexo é o termo usado para descrever pessoas que nasceram com sistema reprodutor, anatomia sexual, gônadas, cromossomos ou hormonios sexuais que não se encaixam na definição típica de masculino ou feminino. Existem mais de 40 tipos de “estados intersexuais” e a intersexualidade não corresponde apenas um quesito cromossômico: ela também está relacionada a genes, aos hormônios e ao físico (fenótipo).

A grande luta dessas pessoas é o reconhecimento da existência do gênero neutro e o estabelecimento de bases para o tratamento adequado de bebês e adolescentes intersexuais. Para que no futuro cada criança possa decidir seu sexo e não comissões médicas ou familiares. O Chile é o primeiro país da América Latina a proibir cirurgias precoces em crianças intersexo e, em relação aos transexuais, o Brasil é um dos poucos países da America Latina que não têm leis específicas para a população transgênera.

Dionne hoje tem 28 anos e é Terapeuta Ocupacional formada pela USP, pós graduada em saúde do adulto e do idoso e mestranda na área de políticas públicas para pessoas transgêneras na UFPR. Trabalha como terapeuta ocupacional num centro de atendimento na região metropolitana de Curitiba, além de ser youtuber e militante dos direitos LGBTI. Para ela, visibilizar a questão intersexual é mostrar que esses binários construídos socialmente para controle de corpos não são verdadeiros. “Existem o masculino e feminino, mas entre eles existem muitos estados intersexuais que também existem e que são humanos e não anomalias. São vivências naturais que existem como os outros dois binários e que devem ser respeitadas. Enquanto a gente não desconstruir isso o preconceito que a gente enfrenta enquanto transsexuais e intersexuais e até mesmo homosexuais vai continuar existindo por motivos que não condizem com a realidade da natureza.”