FÁTIMA

“42 Dias. Fez um ano que estive lá, muitas foram as vezes que tentei falar sobre os dias internada no hospital Nossa Senhora da Luz, nunca conseguia, hoje chorei muito antes de começar, mas sinto que é muito importante que faça isto. Quando a porta foi fechada e a enfermeira pediu que a acompanhasse, ainda olhei para trás e ali começava os 42 dias mais horríveis da minha vida. Eu estava muito triste naquela manhã, mais aos poucos fui observando todas aquelas mulheres ao meu redor! Quem eram elas? Porque estavam lá? E eu, porque me encontrava tão sozinha, sem meus filhos, minha vida que ficara lá fora!? Estava muito deprimida, muito confusa em relação a mim mesma, fora isto que me levou ao hospital. No meu mais íntimo sabia minha dificuldade para com o resto do mundo! Os dias foram passando e com ele minha vontade de voltar ao mundo real, a de respirar o ar do outro lado daquele muro. Um muro tão alto que eu jamais acreditei existir (...)” Fátima, 2008.

Fátima é uma mãe. É a história de uma mulher que descobre um transtorno bipolar após ter seu segundo filho. Fátima é minha mãe. Uma mulher que largou a faculdade de Artes Cênicas no último ano para ir atrás de drogas em Foz do Iguaçu. Fátima é a vida que foi dedicada aos filhos. Fátima fala de família, aceitação, respeito, superação e empatia. Principalmente empatia. É uma história de amor de si que reflete de diferentes formas em todas as pessoas que vivem ao seu redor. E que ao mesmo tempo, a leva aos mais variados conflitos internos, chegando a ápices de ataques e tentativas de fuga do mundo real.  

Um pouco da história de Fátima:
Quando criança, Fátima vê sua mãe morta no asfalto após ser atropelada por um ônibus. Ao redor dela existem pedaços de peixe para todos os lados, do próprio peixe que a mãe trazia para as crianças. Depois disso, Fátima demorou alguns anos para voltar a comer peixe, coisa que não gosta muito até hoje. Perto dos 10 anos de idade, já com a família adotiva, Fátima possui muitos vizinhos de sua idade, mas que não querem brincar com ela pelo fato de ser muito autoritária e querer fazer tudo do próprio jeito. Sendo assim, Fátima oferece bolos e cafés maravilhosos de sua mãe para que as crianças comecem a frequentar a sua casa. No ensino médio Fátima entrou no Colégio da Polícia Militar do Paraná. Lugar onde quase foi expulsa, porém, onde se sentia muito bem, desde que foi escolhida para monitora da sala. Apesar de seu trabalho ser manter a ordem em sala de aula quando os professores estavam longe, Fátima ficava na porta e deixava os alunos livres. Apenas avisava quando alguém estivesse a caminho. Fátima viveu a juventude no mundo das drogas. Começou a faculdade de Artes Cênicas, largou no último ano, trocou de cidade, estava viciada em cocaína e não queria mais trabalhar. Ficou por um bom tempo pulando de cidade em cidade, trabalho em trabalho, até quando retornou para Curitiba, com 30 anos, reencontrou o grande amor da sua vida e engravidou da primeira filha. O único motivo que a fez parar com o vício. “Ou você para ou a criança pode nascer com alguma deficiência física e psicológica”, foram as palavras do médico. Ao ter o segundo filho, com 40 anos, numa cesárea sem anestesia, Fátima entra numa intensa depressão pós-parto, que a faz despertar a doença que trata até hoje, o transtorno bipolar. Hoje, com 53 anos, é uma mulher que dentro de si carrega um peso enorme de se manter sã diante dos padrões do “mundo normal”. Às vezes comenta que os loucos são os outros que vivem num mundo ditado a regras e convenções hipócritas. Que ela não precisaria tomar remédio para controlar-se. Por que ter controle? Para fingir que tudo está bem? 

Fátima é o retrato de uma vida, de uma relação mãe-filha cheia de conflitos internos e questões omitidas. É uma mãe que ora diz não ter a filha que no fundo desejava, ora diz ter a melhor filha do mundo. É uma filha que, sempre teve a melhor mãe do mundo e nunca conseguiu fazer com que a mãe confiasse fielmente nisso. 

A Menina do Dedo Preto

“Desde pequena, a menina do dedo preto sabia o que dizer quando lhe perguntavam sobre o futuro: Quando chegamos nele, ele já não existe. A menina só não imaginava o quão duro poderia ser isso. Durante anos almejou ter um boa relação com sua mãe, e , sempre que se aproximava disso, todo o resquício de uma boa convivência se desfazia virando pó. Ela pensava, revirava a cabeça tentando entender o que acontecia e nunca encontrava uma resposta.

Foi numa dessas reflexões que entendeu um dos piores erros do ser humano: o ser, sem empatia. Para a mãe, a relação mãe e filha sempre foi das melhores, de dar inveja às amigas. E de preto, só mesmo as unhas da menina.”

Minha mãe escreveu muitas cartas para mim durante a minha vida, algumas antes mesmo de saber que eu era uma menina, ainda em sua barriga. 

A primeira vez que eu vi minha mãe sendo internada eu tinha uns 12 anos. Tentei entender os motivos, a doença, mas não encontrei respostas. Ela sempre foi um pouco diferente das outras mães e de todo o resto da família, mas isso seria doença? Penso que talvez eu nunca tenha aceitado isso. Me dói pensar que a cabeça dela sofre sem encontrar respostas para a vida real. Sofre tanto, que as vezes fugir é a única opção. 

Quando me contaram que ela havia tentado se jogar de uma ponte e precisava ser internada eu exitei; mas será que precisa mesmo? Difícil aceitar que minha mãe é doente. Porque ela não pode simplesmente viver como todas as outras? Talvez eu me sinta incapaz de ajuda-la e isso me revolte tanto a ponto de não querer enxergar doença nenhuma. Ou talvez a sociedade sempre tenha tratado as doenças mentais com tanto tabu que a aceitação para tal seja mais dolorida. 

No carro, após chegar de Itajaí. 

No carro, após chegar de Itajaí. 

A despedida, encontrada em sua carteira, antes da última tentativa de suicídio. 

Ao chegar em Curitiba, no caminho para a Clínica que tentaríamos vaga.

Aguardando a irmã e o cunhado virem busca-la para levar a clínica em Piraquara.

Aguardando na clínica para ver se abriria vaga. Não abriu. 

Tive medo, tive angústia, tive amor, tive empatia, tive saudade, tive raiva, tive desespero. Minha última semana. O dia que eu internei minha mãe. Sofri, e quis ser criança para não ter que lidar com isso. Sofri, por saber que ela também sofria; de arrependimento por ter ido até a ponte, de tristeza por não querer mais viver nesse mundo, de tristeza, por achar que a vida dela não fazia mais sentido. Me vi surpresa ao escuta-la dizer que se sentia vazia. Que poderia ter sido uma professora, uma atriz, uma jornalista, mas hoje, quem era? "Você é a mulher que eu mais admiro na vida", eu queria ter respondido, mas não consegui. O choro engoliu minhas palavras. Dizem que nada é por acaso e senti que esses dias ao lado de minha mãe, a espera de uma vaga na clínica, foram os mais sinceros que passamos juntas. Os papéis se inverteram e pude perceber o quanto somos frágeis e o quanto minha mãe precisa de mim. Ou talvez o quanto eu precise dela também. Todos nós precisamos uns dos outros. Agora ela está lá, internada numa clínica em que podemos nos falar apenas depois de 15 dias. Eu nunca senti uma dor tão forte quanto a dor de deixa-la lá. O quão traumático pode ser um internamento? Eu quero que esse seja o último. 

Aguardando a irmã e o cunhado virem busca-la para levar a clínica em Piraquara.

Aguardando a irmã e o cunhado virem busca-la para levar a clínica em Piraquara.

"Eu queria voltar pro útero da minha mãe". Minutos antes de ser internada em Piraquara, no dia 07 de abril. 

Duas histórias, duas mulheres, que se unem em uma.

Comecei a fotografar minha família por pensar que um dia elas não estariam mais aqui e eu, teria fotografado o mundo, menos elas. Foi quando percebi que estava fotografando, antes de tudo,  a minha relação com elas. Aqui tenho as mulheres da minha vida. Mãe e vó, duas relações, um ciclo sem fim. 

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