Erótico? Pornográfico? Vulgar?

O nu é muitas vezes visto de forma equivocada na sociedade. O ensaio O Corpo Fala* de Isabella Lanave, discorre sobre a expressão nua e crua da mulher dentro de sua intimidade. O ensaio foi e continua sendo realizado com diversas mulheres em espaços, em sua maioria, completamente diferentes. Mulheres de todas as idades e jeitos. As fotos retratam o corpo como uma forma de comunicação visual e expressiva, fazendo com que a nudez se torne autossuficiente no todo.

O nu na fotografia foi, diferentemente das artes tradicionais em geral, mais bloqueado. A conotação moral que supunha uma pessoa se despir na frente de uma câmera levou a fotografia do nu ser considerada meramente pornografia, e a ser relegada a circuitos clandestinos. Isso foi constante praticamente até o século XX, devido principalmente a diversos criadores que a realizavam sem cuidado algum. Na fotografia de nu não se pode deixar de lado o processo de composição e iluminação, por ser um meio intrinsecamente realista que capta o corpo humano com todas as suas imperfeições. Se o resultado desejado é essa realidade, perfeito. Mas o nu procurou desde o idealismo da arte clássica uma imagem mais aperfeiçoada, o que faz com que o processo de retoque para conseguir os efeitos desejados sejam trabalhados minimamente.

Ideia que evoluiu até o ponto em que se vive hoje: cirurgias plásticas são usadas para padronizar, uniformizar rostos, seios, bundas, barrigas, bíceps, tríceps e tudo o que puder ser mudado. Imagens fotográficas tornaram-se reflexos de barbie’s e ken’s com corpos em série. A fotografia, como base desses corpos perfeitos, torna-se um simulacro possível de inscrever mentiras para satisfazer variados públicos, que através da imagem fotográfica consomem “uma identidade social, uma identidade padronizada, que desafia, não raro, o conceito de individualidade, permitindo forjar as mais variadas tipologias.” (FABRIS, 2004)

A fotografia, portanto, é consumida não politicamente, mas esteticamente. O indivíduo é banalizado e a mídia constrói um modelo de sucesso representado por poses, roupas e corpos idealizados. É engraçado, pois ao mesmo tempo em que somos ‘donos’ do nosso corpo, tendo total autonomia para transforma-los por meio da tatuagem, piercing, escarificações e também a cirurgia plástica, ainda é a padronização do corpo que prevalece, atrelada ao conceito passado pela sociedade. O cinema, a televisão, as revistas ditam o que é certo e determinam como as pessoas devem sentir prazer. A descoberta do seu próprio corpo e do outro são ignorados.

Sendo assim, o moralismo condena uma leitura política do corpo e do erótico na fotografia, tendo como postura a repercussão de concepções rasas de mundo, não exigindo do interlocutor uma reflexão sobre o seu próprio viver. Se imita a ‘vida’ encenada na mídia e julga aqueles que optam por vive-la intensamente. É mais fácil viver num mundo padronizado, no qual você se sente confortável ao compartilhar da mesmice e da passagem do tempo.

Por essa razão, pensando em criar condições de reflexão e problematização a respeito da uniformização do corpo e dos desejos femininos, foi concebido “O Corpo Fala.

Com o decorrer de um projeto, se constrói um olhar mais atento e sensível do mundo ao redor, identificando realidades que antes, passavam despercebidas. Histórias, espaços, características, problemas, sentimentos próprios e dos outros, se tornam presentes. Fotografar incita à reflexão.

Refletir é pensar sobre a vida e suas intermediações. E quem reflete, tem o espírito pronto para se tornar um agente de mudança e transformação social. A fotografia é muito mais do que regras definidas e funções estabelecidas. A fotografia é uma arte, e assim sendo, toca o humano lhe causando importantes e intensas percepções.

*O ensaio foi apresentado no congresso nacional da Intercom e vencedor na categoria Ensaio Fotográfico Artístico do Intercom Sul em 2013.